Tradutora Carol

Apenas a minha penseira.

Quantas vezes podemos morrer?

Posted by Tradutora Carol October - 16 - 2011

Quantas vezes podemos morrer?
O Beto lançou a pergunta, assim, sem pretensão.
Respondi aquilo que me veio à mente na hora e disse que enquanto vivos, sempre morremos.
Mas a pergunta permaneceu. E não pude evitar pensar em como eu tinha aquela resposta assim tão pronta.
Como eu sabia que isso fazia parte da vida?
Quem me ensinou que para que algo novo possa nascer, algo tem que morrer?
Concluí que tinha morrido muitas vezes mesmo, mas continuei pensando em como conheci esse ciclo.
Existe uma dualidade no ciclo. O mesmo poder que temos para dar vida a algo, temos também para conceder a morte. E essas forças andam juntas, e devem ser amigas.
No começo, aceitar o ciclo é difícil, a morte de qualquer coisa é pesarosa, complicada, inaceitável e sofrida.
Talvez seja necessário entrar no ritmo, parar de lutar contra essa força dupla.
E acima de tudo, é preciso “olhar e ver o que se está vendo”, se posso colocar assim.
Bom, ainda com a pergunta em mente, pensei sobre o que morreu e o que nasceu.
Pensei sobre ilusões e crenças. Também pensei sobre correntes.
Há duas opções, podemos arrastar a corrente e viver também arrastando-nos, ou podemos examinar cada elo que a compõe.
É isso que quero dizer com “olhar e ver o que se está vendo”. É uma frase estranha, porém exata.
Para fazer amizade com ciclo, é preciso ver o que tem ali.
O que essa corrente apresenta e quais elos eu preciso retirar?
Então temos o elo da ilusão.
A ilusão é confortável. Com ela estamos seguros.
Livrar-se dela é como abandonar um grande amigo.
Enquanto não estamos “olhando e vendo”, a ilusão nos mantém como vítimas.
Em vez de criarmos defesas, criamos desculpas. E o elo continua na corrente e ela continua pesada.
Mas um dia, quando decidimos olhar e ver aquele elo, e percebemos como ele está defeituoso, pode até doer, mas nos livramos de uma parte nociva.
Então criamos defesas, porque agora não estamos olhando para fora, e sim para dentro.
Podemos não saber ainda quem somos ou o que queremos realmente, mas sabemos o que não somos e o que não queremos. E isso já é um grande começo para melhorar as escolhas, já que agora não se baseiam em ilusões.
Retiramos esse elo e morremos uma vez.
Mas agora estamos mais vivos que antes, mais conscientes de nós mesmos, e mais saudáveis.
As crenças são diferentes das ilusões.
As ilusões são sempre nocivas. As crenças podem ser boas ou ruins e é preciso separá-las.
Existe aquela crença, que parece muito boa e adequada. Você cresceu com ela, foi tradicionalmente ensinado a segui-la e alimentá-la.
E é isso que você faz enquanto não olhar e ver.
Felizmente, assim como qualquer coisa que não seja natural, existe aquela força da morte, um incômodo, como se algo não estivesse bem ajustado, e paramos para olhar e ver.
E o que vemos é que estamos fazendo uma força muito grande para nos ajustarmos a algo que na verdade não nos satisfaz em nada, mas que aprendemos a seguir.
A pessoa que está olhando e vendo, questiona isso e decide que vai procurar aquilo que lhe faça mais sentido. Ela morreu e vai agora nascer.
Lá se vai mais um elo, e a corrente está mais leve.
Poderia escrever aqui muitos outros exemplos desse ciclo pessoal, pois essa pergunta do Beto me fez olhar e ver o caminho até aqui. O importante é que depois da terceira morte-vida, aprende-se a passar pelos ciclos com mais suavidade.
Agora já não é tão doloroso.
Agora existe uma elegância.
Os altos e baixos da vida não assustam tanto porque compreendemos que são naturais.
Vamos caminhar por esse vale com a mesma eficácia com que subiremos a montanha.
Vamos encarar o negativo com a mesma destreza com que vivemos o positivo.
E o melhor de tudo é que agora sabemos quando chegou a hora de um ciclo começar ou terminar.
Quando está na hora, está na hora.
Respeitamos a morte da mesma forma que respeitamos a vida porque estamos olhando.
E vendo.
***
“Há uma escada.
A escada está sempre ali inocentemente suspensa
junto à lateral da escuna…
Vou descendo…
Vim explorar os destroços…
Vim para ver os danos sofridos
e os tesouros que restaram…”
(Adrienne Rich)


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2 Responses so far.

  1. morte para mim, são transformações necessárias. Vivemos um ciclo constante que nos obriga à mudar sempre… quando éramos crianças, gostávamos de brincar; quando adolescentes, era muito bom namorar! também desejávamos loucamente nos tornar logo adultos… quando jovem, o bom é viver intensamente cada minuto; quando adultos, o foco é ter um bom emprego, família… e enfim quando amadurecidos, sonhamos em nos tornar novamente crianças….

    Presumo que, então, somos “mortos” por termos objetivos diferentes em cada ciclo de nossa vida. Acho tudo isso muito natural e não me assusta. Agora, devemos nos preocupar com a morte final e real. Aquela que não nos permite outros ciclos nessa vida…. Todavia, existe uma força maior que me tranquiliza disso. Eu o chamo de Jesus Cristo!

    Alex Rudson


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