“Perdôo o que me fez. Amo quem me matou… mas o que farei com quem lhe mata?” (Heathcliff)
Li tantas vezes que perdi a conta.
A primeira vez que li, eu era adolescente e num filme que não me lembro, a personagem falou que Emily Brontë nunca havia tido um relacionamento na vida e mesmo assim escreveu sobre o amor como ninguém.
Pouco se sabe sobre a autora Emily Brontë, exceto sobre seu nascimento em Thornton, Yorkshire, em 1918, sua educação em Bruxelas e um pouco de sua vida com as irmãs.
O morro dos ventos uivantes é seu único livro, publicado em 1847 sob o pseudônimo masculino de Ellis Bell, assim como seus poemas.
O livro mostra o profundo amor de Emily pelas paisagens de Yorkshire, especialmente pelas charnecas.
Com uma imaginação poderosa, acompanhada de sua capacidade de observar as pessoas, Emily escreveu sobre amor e crueldade.
Catherine, ainda criança, conhece Heathcliff, um garoto trazido pelo seu pai ao voltar de uma viagem. Ninguém sabe de onde ele veio, ele não tem sobrenome e é desde o princípio um mistério.
Catherine cria laços profundos com Heathcliff, mas seu irmão Hindley o despreza e o considera um rival.
Heathcliff divide-se entre o amor por Catherine e o ódio pelas humilhações que sofre.
Um dia, revolta-se e vai embora de Wuthering Heights (Morro dos Ventos Uivantes, nome dado a casa onde moravam) e só volta depois de 3 anos.
Quando retorna, Catherine está casada, mas seu coração atormentado ainda pertence a Heathcliff.
Não sabemos onde ele esteve durante os 3 anos, ou o que andou fazendo mas ele volta com dinheiro e muito mais cruel e misterioso que antes, e pretende exercer sua vingança tirana.
Na verdade, “O morro” é um anti-romance, se posso chamar assim, porque o relacionamento de Cathy e Heathcliff é extremamente doentio, como se ambos não conseguissem desatar os laços que o prendem.
Além disso, os personagens não são apaixonantes, são na verdade muito centrados em si mesmos.
E Heathcliff não tem nada de romântico, pelo contrário, é muito possessivo, controlador e manipulador. E aos poucos sua obsessão com vingança e em ter Catherine para si o deixa louco.
Com pele e cabelos escuros, Heathcliff é caracterizado quase como um cigano, com postura ereta e muita beleza, mas muito reservado. Usou e magoou muitas pessoas que entraram em sua teia apenas como objetos para um fim.
É o tipo de homem que não só culpa os outros pela própria infelicidade como promete morrer se você o abandonar.
Heathcliff é um homem mau, seu único sentimento bom é o amor que sente, e mesmo isso é cruel e doentio.
O livro é desprovido de convenções sociais e carregado de emoções intensas.
Acabou sendo um trabalho de tragédia profunda, permeado por vingança, amor, luxúria, orgulho, e possivelmente fantasmas.
É leitura rápida, mas densa.
***
Algumas frases e alfinetadas:
“Amo o chão sob seus pés, e o ar sobre sua cabeça, e tudo que ele toca, e cada palavra que ele diz. Eu amo todo seu aspecto e seus atos, e ele todo e inteiro.”
“Seja lá do que forem feitas nossas almas, a minha e a dela são iguais.”
“Não posso viver sem minha vida, não posso viver sem minha alma.”
“(…) então ele nunca saberá o quanto o amo; e não porque ele é bonito, Nelly, mas porque ele é mais eu do que eu mesma.”
“’Não procuro vingar-me de ti’, respondeu Heathcliff. ‘Este não é o plano.
O tirano tortura os escravos, mas os escravos nunca se voltam contra ele; vão esmagar aqueles que lhes ficam por baixo. Pode me torturar até a morte, para se divertir; consinta, porém, ao menos, que eu também me divirta um pouco, de maneira idêntica, e tanto quanto lhe for possível, evite me insultar. Se eu imaginasse que desejas realmente que me case com Isabel, eu cortaria minha garganta!”
“Mesmo que ele a amasse com todas as forças do seu mesquinho corpo, nem em oitenta anos a amaria tanto quanto eu a amo em um dia. E Catherine tem o coração tão profundo quanto o meu; seria mais fácil o mar caber todo nessa vasilha do que todo amor dela ser monopolizado por ele.”
“Meus maiores sofrimentos neste mundo têm sido os sofrimentos de Heathcliff; fui testemunha deles e senti-os todos, desde o começo. Meu maior cuidado na vida é ele. Se tudo desaparecesse e ele ficasse, eu continuaria a existir. E se tudo o mais ficasse, e ele fosse aniquilado, eu ficaria só num mundo estranho, incapaz de ter parte dele.”
“ Meu amor por Linton é como folhagem da mata: o tempo há de mudá-lo como o inverno muda as árvores, isso eu sei muito bem. E o meu amor por Heathcliff é como as rochas eternas que ficam debaixo do chão; uma fonte de felicidade quase invisível, mas necessária. Nelly, Eu sou Heathcliff. Sempre, sempre o tenho em meu pensamento. Não como um prazer, porque eu também não sou um prazer para mim própria, mas como o meu próprio ser. Portanto, não fale mais em separação: é impraticável”
“Afinal de contas a gente tem que pensar em si; e o egoísmo dos entes meigos e generosos é mais justificável do que o dos soberbos.”
“Já não reparou que quando a gente está assentado só, olhando a gata lamber o gatinho no tapete de fronte, fica-se a vigiar o trabalho com tanto interesse que, se a gata esquece uma orelha, até dá raiva?”
“Eu sei que você procedeu infernalmente comigo… infernalmente, está ouvindo? E se tem a ilusão de que não apercebi disso, não passa de uma tonta! E se cuida que me consolo com palavrinhas amáveis, é uma idiota! E se imagina que vou ficar sofrendo sem tirar vingança, hei de convencê-la do contrário, e muito em breve!”
“Sua presença é uma peçonha moral que contaminaria as mais virtuosas criaturas.”
“Não tenho dó nem piedade, quanto mais os vermes se retorcem, mais desejo sinto eu de lhes revolver as entranhas! É como uma espécie de dor de dentes moral; quanto mais a dor aumente, mais trinco os dentes!”
“Todo homem de juízo deve encontrar companhia suficiente em si próprio.”
“Me seria mais fácil esquecer da própria vida do que me esquecer de você.”
“O que mais me atribula é esta prisão desmantelada. Estou cansada de estar presa aqui, estou louca para fugir para este mundo luminoso e lá ficara para sempre; não quero mais enxergá-lo apenas através de um nevoeiro de lágrimas, nem suspirar por ele através das paredes de um coração cheio de dor, quero estar nele, dentro dele.”
“Arrancar os nervos de alguém a ferro em brasa exige mais coragem que rebentar-lhe apenas a cabeça.”
“Mas a traição e a violência são armas de dois gumes, ferem aos que as usam tanto quantoaos seus inimigos.”
“Um é ouro puro feito de pedra de rua, o outro é lata polida, fingindo de prata.”
“E por mais infelizes que nos torne, teremos sempre a desforra de pensar que a sua crueldade deriva da sua desgraça.”
Prendia-se a ele por laços mais fortes do que aqueles que o frio raciocínio pode destruir, laços tecidos pelo hábito, os quais seria crueldade tentar romper.”
“…e meu espírito tem estado sempre tão fechado dentro de si próprio que é uma tentação forte demais desvendá-lo diante de alguém.”
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Há duas versões em filme que conheço, e na mais recente atuam Juliette Binoche e Ralph Fiennes.














