Entrando na Selva Eu sempre adorei ensinar Inglês e fazia isso há anos.Passei no concurso pra professor público. Eu tinha acabado de sair de uma escola particular.Muito bem. Eu era muito inocente, admito. Num delírio infantil, pensei que ensinaria como ensinava nas escolas como Yázigi e Wizard, que levam a coisa a sério. Eu realmente tinha muito prazer em ensinar nessas duas escolas. Mas encontrei uma mediocridade incrível e uma realidade assoladora nas escolas públicas onde trabalhei. Confesso que fiz vários amigos principalmente entre os alunos. Mas podemos contar nos dedos aqueles que estão realmente interessados. Eu não entendia aquelas reuniões pedagógicas, onde muito se falava e nada era feito. Era como se durante a reunião, todos, professores, coordenadores e diretores tivessem credencial pra fantasiar e brincar de românticos. Todos fingiam que concordavam com as idéias de uns e de outros e projetos mil eram cogitados. Eu nunca vou esquecer as reuniões. Depois que saiam de lá, os professores se contentavam em apenas escrever na lousa a matéria, e professor bom era aquele que mantinha a sala sob controle usando de ameaças. A outra opção de controle era ditar a aula toda, assim ninguém conversava e só copiava. Eu não poderia me valer desse recurso. Como eu vou ditar uma aula de Inglês? Prova não existe. Porque ninguém repete mesmo. A única maneira para que um aluno repita o ano é por falta, e ainda assim, precisa fazer muito esforço. Quando chega o conselho de final de ano, os professores entram em consenso e decidem que não vale à pena reprovar o aluno uma vez que ele tem 20 anos e está já velho para cursar mais uma vez o segundo colegial. Não tem problema se ele não consegue escrever.
LSD e Sabão O secretário da educação da época, com certeza usava ácido. O que ele falava não condizia com a realidade. Não estava nem mesmo na vizinhança da realidade. Eu tenho certeza que ele delirava e pensava que estava na Suécia. E parei de ouvir o que ele tinha a dizer quando fui obrigada a sentar e escutar seu discurso motivacional de início de ano para os professores. Pensei ter ouvido coisas, mas não. Ele realmente aconselhou que os professores tomassem banho antes de dar aulas. Pode uma coisa dessas? Outra piada. Sabia que desacatar um professor público configura em desacato à autoridade? Tô rindo até agora.
Os bandidos e os bandidos-wannabees Eu descobri uma coisa durante aquele ano. Os bandidos, bandidos mesmo, respeitam os professores. Claro, de maneira um pouco deturpada, mas dentro da realidade do local, eram melhores do que os “bandidos-wannabes”, aqueles que sonhavam em ser um bandido importante. Bandido mesmo não zoneia a sua aula. Fica na dele. Talvez ele queira manter um “low profile” e chamar pouca atenção à si. Os bandidos-wannabes querem chamar atenção, ser poderosos ali já que não são nada fora dali, e os professores são a autoridade que escolheram para azucrinar. Incrivelmente nunca tive problema com nenhum dos bandidos reconhecidos. Eu to falando de bandido. Daquele que rouba, que mata, e que não dá a mínima se todos sabem disso. Só há um problema. Quando o bandido, aquele que já mostrou o “berro” ou “ferro” que ele carrega, diz pra você: “Aí professora, eu tô saindo pela janela, valeu?” O que você faz? Fala não? Fala que vai colocar falta? E se você não colocar falta? Ele sai dalí, rouba um estabelecimento no bairro e diz pra polícia que não foi ele pois ele estava na escola nessa hora. A polícia resolve checar e vê que ele está com presença na sua aula na hora do crime. O que você é? Cúmplice? Está feito o dilema. E tem o outro “aluninho”, aquele que faltou meses seguidos e você nem o conhece direito. Você fica preocupada com as faltas e o questiona quando ele aparece. “Ow fulano, o que aconteceu? Por que você faltou tanto?” Tome a resposta: “ Ah professora, eu tava na Febem.” Diálogo finalizado.
Broken Confesso que a escola pública quebrou meu espírito. Um ano foi suficiente para mim. Mais do que isso e eu tinha medo de me tornar aquela professora que apenas escreve na lousa e depois baseia sua nota do aluno em quantas matérias ele fez o favor de copiar. Confesso também que eu não estava preparada pra dominar 49 alunos que não queriam estar ali. Talvez eu não tivesse a competência e autoridade necessárias. Eu estava acostumada a ensinar quem realmente queria aprender e pagou caro pelo curso. Eu estava acostumada a ensinar pessoas que vibravam em aprender outra língua e que consideravam a importância disso. E não me venha com aquela de “Oh Capitan, my Capitan!” e de que professor bom sabe conquistar a atenção dos alunos porque isso é conversa fiada. Eu vi o tipo de conquista que é preciso exercer e não tem nada a ver com rasgar páginas de livros, subir na mesa, e mandar um “Carpe Diem”. Tem a ver sim com força bruta. Não vi nenhum professor de cinema ali.
Quem é o pai desse filho? Percebi que tudo é agora atribuição da escola. Eu não aceito a teoria de que a escola seja responsável por ensinar uma pessoa a ter higiene pessoal, por exemplo. Sabe aquelas aulinhas de como escovar o dente no pré? Isso eu acho muito proveitoso. Agora, eu ter que ensinar uma garota de 15 anos a lavar o cabelo e ter asseio pessoal? Não, não,não. Também há um limite de cidadania que a pessoa pode aprender na escola. Eu posso estar errada, mas o adolescente passa apenas um período da vida na escola e precisa de um modelo em casa. É difícil, os adolescentes não tem os pais em casa, provavelmente a maioria está trabalhando duro e não tem muito tempo com os filhos. Mas os filhos são dos pais. Não da escola. Os coitados vão pra aula com a barriga vazia de manhã. As aulas que são antes do intervalo para merenda não podem ter aproveitamento adequado quando o indivíduo está com o estômago doendo de fome. Nem me deixe contar sobre a merenda. Eu tenho até preguiça.
A Sala dos Professores Eu não queria mais estar ali. Nos intervalos, eu já não sabia onde ficar. Muitas vezes preferia ficar com os alunos no pátio, ou lia um livro, ou ficava na sala, mas fazendo qualquer outra coisa que não fosse ouvir as conversas. As conversas são sempre sobre o que o aluno tal fez, ou falando mal de um colega professor. Muitas intrigas, quem pegou aula de quem, e que fulana falou isso e aquilo. Além de uma curiosidade imensa em saber da minha vida. Cheguei a me interessar por um professor. Ele até era interessante. Escrevia poesias. Depois pensei comigo: Já imaginou isso? Uma eterna sala dos professores? Já pensou esse cara discutindo comigo em casa os mesmos assuntos discutidos na escola? Deixa pra lá.
Apagadores voando A mídia adora noticiar quando o professor maldito jogou o apagador na aluninha querida. O que a mídia não contou é que esse mesmo professor apanha de cabo de vassoura ali mesmo, tem seu carro roubado na porta da escola pelos próprios alunos, recebe apelidos nojentos, é humilhado a todo instante e que coisas lhe são lançadas nas costas quando está escrevendo na lousa. A mídia não sabe que a aluninha da quinta série estava se masturbando na mesa durante a aula de história e mandou a professora calar a boca e deixá-la gozar. Sim, é isso mesmo. Coitada da professora de história e ensino religioso. A Diretora mandou chamar o Conselho Tutelar e a menina tirou a roupa na cara do “conselheiro”. Ninguém sabe que trancam o professor dentro da sala e o ameaçam, e que algumas vezes, um B.O. numa delegacia é a única maneira de fazer com que o menininho de 18 anos caia na real sobre suas atitudes. Se ele queria ser bandido, agora tem ficha na polícia. Não contam que a aluninha acende cigarro de maconha durante a aula.

Ninguém fala sobre o lencinho que o aluninho calçudo leva amarrado no braço ou escondido no caderno com substância duvidosa que ele cheira e fica descontrolado.
Não contam também que o professor está de mãos atadas quando os alunos sabem que nunca vão repetir o ano e que existe uma regra de que não se pode mandar aluno pra fora da sala. Aluno é pra ficar na sala. O professor que dê conta. Não comentam sobre o fato de ele ter que dar aulas das 7 da manhã às 11 da noite non-stop se quiser manter um mínimo de dignidade financeira. Tem muito professor pilantra sim. Tem professor iletrado. Tem professor que fez a faculdade porque não sabia o que mais fazer. Mas tem o coitado que fez porque tinha o sonho de ver um aluno aprender. Tem o professor que tem prazer em ensinar. E é só por isso que ele persiste.













